Por Clearspine
Para se tornar um jogador de poker bem sucedido, é essencial compreender o jogo dentro do jogo. As reviravoltas psicológicas que podem estar presentes em cada mão. Essas permutas mentais ocorrem entre o jogador e os demais envolvidos na mão e é dependente do nível de pensamento utilizado para por cada um deles para analisar as ações. O quão mais profundo você chegar em seu raciocínio no poker, mais hábil você estará para enfrentar qualquer um que cruzar o seu caminho em qualquer nível de jogo. Este artigo fala sobre o nível de raciocínio 1, e veremos como reconhecer o tipo de jogador que tem esse raciocínio e como jogar contra eles.
Um jogador de nível um está focado em apenas uma coisa: Nas cartas de sua mão. Quando você leu algum artigo ou cartilha sobre quais mãos são mais “apropriadas” para jogar em cada posição da mesa, essa informação é armazenada no nível 1 de raciocínio de seu cérebro. Em todos os estágios da mão, o jogador de nível 1 analisará sua mão no vácuo. Tomando decisões baseado única e exclusivamente no que ele acha sobre sua mão (forte ou fraca), sem se importar com o que seus oponentes possam ter.
Um tipo clássico de jogador de nível 1 é o calling station. Quando ele conseguir acertar qualquer coisa no bordo, ele irá seguir na mão até o seu fim. Um mísero par é suficiente para encorajá-lo a ir para o showdown. Uma das regras básicas do poker é nunca blefar contra um calling station. Ele não conseguirá enxergar seus movimentos como se eles demonstrassem uma mão forte o suficiente para derrotá-lo. Como o calling station está focado apenas nas suas cartas, nada ao seu redor será registrado em seu cérebro. Então mesmo que o bordo possa representar um straight ou flush, ele irá pagar seu blefe até o fim.
Por outro lado, jogadores com raciocínio de nível 1 são muito mais suscetíveis a pagar apostas quando você acertar sua mão. Já que eles ficarão na mão com qualquer mão marginal, você precisa aumentar o pote o máximo que conseguir quando tiver uma mão realmente forte.
Você pode reconhecê-los através da força de suas mãos no showdown, e também pelas vezes que eles blefam. Quando um jogador de raciocínio de nível 1 blefa, ele não consegue disfarçar muito bem sua mão, como se a decisão por optar pelo blefe tenha ocorrido no decorrer da mão. Quando encontrá-los, aguarde pelas oportunidades para tirar o máximo de dinheiro possível deles e evite blefes. Use ao máximo suas mãos fortes e encha seu bolso de dinheiro.
Enquanto um jogador com nível de raciocínio 1 não pensa em nada além das cartas que tem em mãos, um jogador de nível 2 começa a pensar mais no que seus oponentes têm antes de tomar qualquer atitude. A vasta maioria dos jogadores que você encontrará online se encaixa nesta categoria e a não ser que você tenha provas do contrário, você deve tratar seus oponentes como sendo um deles.
Um dos perigos do nível 2 de raciocínio é estipular um range aos seus oponentes idêntico ao que você teria em determinada situação. Por exemplo, digamos que um jogador da sua mesa aumente 3x o BB no UTG. Você pode ser o tipo de jogador que aplica esta jogada apenas com mãos premiums, mas é um erro atribuir o mesmo range a qualquer oponente.
Uma observação mais cautelosa é necessária para definir se este jogador aplica um raise como este uma alta porcentagem de vezes, já que isso seria uma forte indicação de um range amplo, tentando espantar os outros jogadores da mão e levar o pote. Não faça suposições sobre jogadores baseado no que eles “deveriam” fazer em determinado ponto da mão. Observe bem, fazendo anotações quando eles mostram mãos que não demonstram jogadas sólidas e tome proveito disso no futuro.
Um jogador de nível 2 blefará com mais lógica que um de nível 1 (que normalmente aplica blefes de forma randômica). Um jogador de nível dois buscará e conseguirá uma leitura sobre qual mão você tem, e fará uma jogada quando sentir fraqueza de sua parte. Geralmente isto virá na forma de um check em posição pós flop, e então um aumento contra a sua continuation bet, ou aguardará até o turn para roubar o pote de você.
Muitas vezes, sua jogada será exclusivamente baseada em assumir que você tem cartas fortes pré flop e acabou perdendo o flop, que trouxe apenas cartas baixas ou com uma única carta alta. Em muitas dessas situações ele mesmo não terá um bom jogo, mas tentará expulsar você da mão.
A melhor forma de combater um jogador de nível 2, é se colocar no nível 3 de raciocínio, ou seja, pensando “O que ELE pensa que eu tenho?”. Conforme você entende mais este nível, você tem maior senso sobre onde seu oponente está na mão, e será capaz de contra atacar quando ele imaginar qual é a sua mão, mas ele mesmo for fraco.
Já que a maioria dos jogadores de nível 2 cometem o erro descrito acima, de colocar você com ranges e decisões que ELES MESMOS fariam, é bom preparar armadilhas com mãos que eles não esperam que você jogue. Por exemplo, se um jogador tight e agressivo de nível 2 ver você aumentando em posição inicial, ele espera que você tenha cartas altas, e tentará roubar o pote em um bordo baixo. Mas e se você mixar o jogo, e fizer algumas vezes este aumento com suited connectors baixos? Você terá a oportunidade de levar um grande pote deixando que coloque a si mesmo em uma situação complicada, tentando lhe expulsar da mão que ele pensa que você tem.
Enquanto o jogador com raciocínio de nível 1 considera apenas suas duas cartas para tomar uma decisão, e o jogador de raciocínio de nível 2 leva em consideração as cartas que seu oponente pode ter, o jogador com nível 3 de raciocínio pode ser definido pela frase “O que será que meu oponente acha que eu tenho?”. Entender esta idéia, e incorporá-la ao seu jogo quando apropriado dá a você uma enorme vantagem contra os jogadores que não raciocinam desta forma.
Vamos conferir um exemplo simples: Você aumenta no cutoff com K-Q suited, e é pago pelo big blind. O flop trás A-7-4 rainbow, e seu oponente dá check. O que você faz? Deixando de lado o fato que a maioria dos jogadores aplicaria uma continuation bet nesta situação, vamos analisar pelo ponto de vista do raciocínio nível 3. Antes de qualquer coisa, qual a sua leitura do oponente? Ele é um jogador com raciocínio nível 2? Lembre que se ele não for, ele sequer considerará o que você pode ter em mãos, e assim você precisará tomar a sua decisão baseado em outros fatores. Entretanto, se ele for, o que será que ele imagina que você tenha? Normalmente, os jogadores presumem que um raiser tenha um grande “A”. Se for esse o caso, você precisa aplicar uma continuation bet quase 100% das vezes, já que o oponente estará muito pressionado para fazer um call nessa situação, a não ser que ele mesmo tenha um Ás muito forte, ou tenha acertado uma mão ainda mais forte neste flop, o que provavelmente será evidenciado por um check raise aqui.
Uma situação similar acontece quando uma carta perigosa aparece no turn ou no river. Digamos que um oponente tenha aumentado pré-flop e você pagou no big blind, o flop trouxe de novo A-7-4, só que desta vez com o A e o 4 do mesmo naipe. Você paga a continuation bet e uma terceira carta do mesmo naipe vem no turn.
Tendo ou não acertado o flush, você pode aplicar muita pressão em um jogador de nível 2, seja apostando ou aplicando um checkraise neste turn. Ou, caso os dois apliquem check, apostando no river. Jogando a mão de forma consistente, e desenvolvendo uma história que faça sentido em cada passo do caminho, você pode levar seu oponente a uma resposta errada sobre qual mão você tem.
É no nível 3 de raciocínio que o jogador começa a deixar de ser um perdedor e conseguir lucros efetivos em seus jogos. Como pode ser visto nos exemplo acima, o nível 3 lhe permite identificar melhores situações para blefes, mas também lhe ajudará a identificar situações lucrativas para value bets moderadas com mãos fortes, o que ajudará em muito na construção de seu bankroll.
Quando você alcançar o nível 3, você precisa estar atento para saber quando usar e quando não usar este raciocínio. O conceito mais importante é: “Jogue apenas um nível acima de seus oponentes”. Sendo assim, se seu oponente é um jogador de nível 1, utilize apenas o raciocínio de nível 2. Se eles têm raciocínio de nível 2, utilize o nível 3, e assim por diante. Não há sentido em aplicar jogadas muito avançadas contra alguém que sequer faz idéia do que você está fazendo.
O nível 4 de raciocínio é a porta para as mais complexas e intrigantes jogadas nas mesas de poker. Este nível é mais bem ilustrado pela frase “O que ele pensa que eu penso que ele tem?”. Um jogador que atua neste nível é o oponente mais perigoso que se pode ter, por que se torna praticamente impossível ler seu jogo e premeditar suas jogadas. Este jogador desenvolverá estratégias para toda uma sessão de cash, ou todo um torneio, para combatê-lo de todas as formas, não importando qual seja seu estilo.
Vamos usar um exemplo recente. O jogador profissional Tony G fez uma aumento de $1.200 com 6 e 5 no small blind e Vanessa Rousso, que tinha A-A, resolveu só pagar para disfarçar sua mão. Tony G então apostou $2.000 no escuro, e flopou 6-J-5, tendo dois pares. Rousso aumentou $5.000 e Tony fez $20.000. Rousso pagou, e o turn trouxe o As, que, além de dar à Rousso a trinca, era a 3ª carta de espadas na mesa. Agora, Tony apostou $10,000, visando colocar todo o dinheiro de Vanessa no pote.
Agora, vamos pausar a ação por um momento, e revisarmos a mão sob o ponto de vista de cada um dos níveis de raciocínio. Para os jogadores no nível 1, é comum ter todo o dinheiro jogado no flop. Depois do re-raise de Tony G, Roussso, se fosse uma jogadora de nível 1, teria simplesmente pensado que seu seus ases continuavam sendo uma boa mão e apostado tudo. Mas neste ponto, Rousso estava operando, no mínimo, no nível 2. Ela sabia que ele era um jogador muito agressivo, capaz de fazer movimentos gigantes sem ter nada. Entretanto, ela também tinha ciência que ele poderia ter acertado ou um trinca ou dois pares, ou poderia ter um flush draw com o qual valeria apostar, então, ela não queria um pote tão grande com apenas um overpair.
Uma vez que o As apareceu no turn, os dois jogadores precisaram estar atentos, no nível 2 de raciocínio, que o seu oponente poderia ter completado um flush, mas eles precisavam levar em consideração o nível 3, “O que ele pensa que eu tenho?”. Para ambos, a resposta era de que seu oponente não tinha uma leitura precisa, Tony G por não ter sido re-aumentado pré-flop, e Rousso pelo aumento de Tony G no pré-flop com conectores baixos não naipados, seguido de sua aposta no escuro.
Depois da aposta de Tony G no turn, o nível 4 entra em jogo. Pelos padrões de aposta adotados por Tony G através da mão, Rousso poderia ter suas respostas de várias formas. O grande re-raise no flop, seguido pela aposta baixa no turn de Tony G pode levar Rousso a acreditar que Tony pensa que ela pensa que ele tinha um flush draw e acertou. Sem ter nenhuma carta de espadas na mão, e conhecendo a reputação de apostador de Tony G, é difícil para ela aumentar ou empurrar neste ponto da mão, porque Tony G com certeza pagará com um flush, e talvez até com algo como K-J, com o rei de espadas. Sua decisão foi pagar a aposta, incorporando de forma correta todos os 4 níveis de raciocínio, e permitindo a ela ver o river para esclarecer suas dúvidas.
Tony G deu check no river, que foi outro 5. Agora, o resultado da mão está claramente pré-ordenado, tendo se desenvolvido em um clássico “cooler”. Neste ponto, a jogada foi tão talentosamente, de ambas as partes, que nenhum nem o outro consegue colocar seu adversário na mão que eles realmente tem. No desenrolar da mão, Rousso foi all -in, sendo paga por Tony G. Rousso levou um pote com quase $200.000, em uma mão onde todos os níveis de raciocínio foram utilizados.

